André, aluado, olhava para mim como se Deus fosse. Não conseguia imaginar o que lhe ia no pensamento, mas muito provavelmente estaria, como eu, a perguntar-se sobre o porquê de as nossas vidas se terem cruzado.
Vi-o recostar-se finalmente no sofá da minha casa, após termos atravessado um metro rodeado de olhares de piranhas, olhou-me novamente.
– E se fosses tomar um banho? Pareces-me muito doente…
– Não, é só o meu aspeto… – Respondeu, fazendo-me olhar para o seu olhar vermelho. Claramente que estava a fazer fita. Queria parecer forte!
– Anda lá. Tens de ir. Eu ajudo-te!
Ele estendeu-me a mão, levando-me a erguê-lo. Parecia um homem de setenta anos, tal eram as suas olheiras e cansaço.
– Vou levar-te até à casa de banho, mas deixo a porta aberta. Se te sentires mal, grita.
– E se cair?
– Olha, também – articulei, não conseguindo evitar um sorriso.
Não poderia negar que toda esta situação era caricata, mas ele estava uma lástima, mal conseguia manter os olhos abertos e quase de certeza que chocava alguma gripe. Precisava de cuidados e, sobretudo, do meu reconhecimento pela ajuda que deu na ponte. Nunca ninguém estaria preparado para testemunhar algo assim…
– Tens medicação cá em casa? – quis saber, mostrando-se mais proativo.
André apoiou-se no meu pescoço, girando a cabeça na tentativa de obter uma resposta:
– Tenho só o básico, mas por agora deve chegar.
Ajudei-o a despir a camisola tingida de noites ao relento, e prontifiquei-me a buscar alguma roupa que tinha. Lembrava-me que trouxera de casa as famosas camisolas largas dos tempos académicos. Deveriam servir-lhe… Sim, e iria correr tudo bem!