Nunca iria esquecer Sara, e nem sabia se a voltaria a encontrar. Mas não era isso que me ia no pensamento, mas sim o seu rosto de felicidade, força e de incentivo quando me despedi dela. O metro podia estar vazio àquela hora de inverno, mas esquecer a rapariga que me salvara a vida, seria para sempre uma história que lembraria. Porém, se queria que ficasse completa, com propósito, teria de a terminar. Podia ter colocado ali um ponto final na ideia de acabar com a minha vida, mas queria desesperadamente virar a página. Acabar este livro e começar outro. Estava cheio de medo. Chorava interiormente e duvidava constantemente de mim. Revia possíveis discursos do que poderia vir a ser o encontro com os meus pais, e por mais que encontrasse um perfeito, parecia faltar algo. Faltava-me a mim.
Encarei a porta de casa com medo. Como se voltasse aos meus pesadelos de infância, em que a cave era o sítio mais tenebroso para se estar. O engraçado deles é que nunca tivera uma cave como nos filmes de terror, mas a porta que agora fitava bem se assemelhava a um medo que nunca na verdade desaparecera: o de ser aceite. O de o ser pela minha família.
Coloquei a chaves na ranhura, abrindo a medo a porta. Um silêncio parecia perpetuar, porém, ao escutar com mais atenção, conseguia ouvir vozes na sala. Fechei a porta, tentando que a minha presença continuasse como despercebida, e pé ante pé, percorri o corredor até chegar à sala. Encostei-me à parede, apanhando um fôlego que me escapara, fechando os olhos. Queria absorver aquele momento. Aquele antes de tudo mudar.
Procurei por todos os sorrisos, todas as festas, todas as aventuras. Procurei por cada emoção… apercebendo-me de algo que nunca me tinha dado conta: toda a força que eu precisava, estivera sempre dentro de mim. Escondida. Mascarada atrás de um armário empoeirado. Um fechado por opiniões que agora percebia que não me importava. Estava na altura de acabar com isto.
Entrei por fim na sala, com uma pequena lágrima a querer escapar-me pelo canto do olho, parada somente ao ver Pedro sentado na poltrona. Tinha o olhar vidrado na televisão, enquanto nas suas mãos segurava o seu precioso telemóvel. Muito provavelmente aguardava por uma resposta minha às mensagens que escolhera ignorar.
– Tomás! – Disseram todos em uníssono.
Sustive a respiração. Queria deixar aquele momento perdurar mais um bocadinho. Quase que conseguia sentir a minha respiração ecoar pela divisão à medida que varria o olhar pela pessoa que mais amava, até chegar aos meus pais. Nunca teria a força suficiente, mas tinha-a. E isso bastava-me.
Aproximei-me sem mais demora de Pedro, esperando que quisesse partilhar deste momento tanto quanto eu, e atirei-me para os seus lábios. Surpresos. Chocados. Confusos. Mas sobretudo, e à medida que me recebiam de volta, com um sentimento de confiança e força que agora compreendia.
Afastei-me do meu prometido, olhando a medo para o lado, onde os meus pais tinham como que parado no tempo. As pálpebras tremiam-me tal era o stress em que estava. Mas a parte mais difícil, aquela que me impedira de ser eu, de viver, levantara-se. Percorria agora a casa, encontrando a janela mais próxima para se libertar. Respirar. Voar. Viver.
– Mãe…Pai! Quero apresentar-vos o Pedro de forma oficial como meu namorado.