Trajetórias

A história em que tu decides

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3.º Capítulo

Julgara que poderia dormir descansada após todo o meu “trabalho” de assistência social, mas estava enganada. O meu coração ansiava por saber algo de Tomás, que por esta altura já teria arcado com quaisquer que fossem as consequências da sua confissão. Sentia-me acelerada por ter André a dormir há quase um dia inteiro no sofá. Só se levantava para comer e tomar medicação, caindo num sono profundo que invejava. Porém, a pior dor, era a que me infligia a mim própria pela falta de contacto com a minha mãe.

Sabia que lhe podia virar costas. Tinha plena consciência de que era independente, e tinha também as minhas poupanças que me permitiram navegar até ter me ter afirmado quanto ao meu futuro. Mas estar aqui, nesta cama, neste mesmo quarto que me viu crescer, e ignorar o quarto onde outrora os meus pais dormiram, magoava-me. Nem André aceitara lá dormir, como se compreendesse o significado do meu olhar de cada vez que encarava a porta fechada. Tinha-lhe agradecido internamente por isso, e por mais que me reprimisse por ser tão infantil ao ponto de deixar um quarto decidir a minha vida, tinha de ser realista comigo. Não podia simplesmente ignorar a dor da perda e da saudade. Já nem era somente do meu pai, mas sim da minha própria mãe. Sem dúvida que sentir a saudade de quem ainda está vivo custa muito mais do que quem já partiu. Este assombro, qual fantasma sobre mim. Lembrete de algo que precisava de se resolver.

Dei uma volta na cama, olhando por fim para o despertador digital que marcava as seis e quarenta da manhã.

– Parece que hoje não passo disto!

Levantei-me, tomei banho, dei um jeito à bancada da cozinha e dei-me ao trabalho de improvisar uma massa de crepes, na esperança de que uma qualquer guloseima me devolvesse alento.

– Estás mesmo dedicada, miúda!

– Não me chames isso – respondi, com um breve sorriso nos lábios. – Dormiste bem?

Vi-o anuir, contendo um bocejo, encostando-se à bancada. Tinha a roupa toda amarrotada das horas passadas a dormir, mas o seu olhar estava já límpido, deixando antever uns olhos verdes hipnóticos.

– Sim, parece que dormi uma vida inteira. – Respondeu, aproximando-se. – Queres ajuda?

Vi-o meter as cascas de ovos no lixo, para depois passar com o pano húmido pela bancada.

Agradeci-lhe com um olhar, levando depois o prato para a mesa da sala. Só me apetecia enterrar no sofá. A verdade é que comemos em silêncio as panquecas, sem sequer nos preocupar com qualquer recheio.

– Como é que uma rapariga como tu acaba com um olhar tão sofrido?

A sua pergunta chocou-me, levando-me a parar de mastigar para o fitar, também ele a ganhar consciência do que me perguntara.

– Bem… acho que podia perguntar-te o mesmo, não é?

Engoli em seco, desviando a atenção para as migalhas abandonadas no prato.

– Acontece que não me sinto o suficiente, sabes? – Articulei. – Nada é suficiente para compensar e me ajudar a lidar com o não saber quem sou. O que quero. Nem é estar chateada com a minha mãe ou a falta do meu pai. É todos os outros que se acham no direito de me julgar. De dizer para onde deveria ir, mesmo que esse destino não me fizer feliz. Sonhei a vida toda com a independência, e na universidade acreditava imenso nisso. Mas o choque com a realidade é mais penoso do que previa, e o problema é que ninguém se parece preocupar com isto. Prometi a mim mesma um sonho que não passa de uma ilusão. E por mais que tenha quem me apoie, essas mãos nunca vão chegar para me amparar. Não verdadeiramente. Não quando eu nem sequer o faço comigo própria…

– E porque não tentas? – instigou, a medo.

– Como?

– Liga à tua mãe… resolve isso. O resto correrá melhor…. Verás!

Ligar à mãe

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