Olhei-a, receoso. Queria muito saltar. Deixar-me escorregar. Abrir os dedos e esperar pelo embate da água gelada no meu corpo. Se me perguntassem há meia hora como me sentia, diria que estava pronto. Era um querer sem fim. Como se a minha vida dependesse disso. Agora já não estava tão certo. Queria… mas queria mais sair dali. Queria pisar solo firme. Queria viver. Seria errado? Faria de mim hipócrita? Tudo o que eu queria era que o meu coração parasse de doer. Que respirar não fosse como me afogar. Que o meu amor, não fosse proibido.
Agarrei na mão que a jovem rapariga me estendia, ainda incerto. Tinha plena consciência que se passasse para o seu lado, todos os males da terra me voltariam a assombrar. Conseguiria lidar novamente com eles?
– Anda, eu ajudo-te. – Confirmou com um sorriso, tentando, talvez, dar naturalidade à situação.
Anuí, sentindo de repente o peso da escolha que fizera, dias antes, de ir para ali. De fazer aquilo. O frio gelava-me agora os ossos, acordando-me do transe que me inebriara a mente. Estava cheio de vergonha, e só queria desaparecer.
Icei-me para o outro lado com a sua ajuda, ficando frente a frente ao seu rosto igualmente pálido e de olhar encovado. Parecia não dormir havia dias.
– Não tens de dizer nada. – Proclamou, mantendo-me ainda seguro no seu aperto de mão. – Vamos descobrir aqueles caminhos?
– Espera! – sentia-me perdido. – Estavas mesmo a falar a sério? – Uma gargalhada seca saiu-me da boca, capaz de surpreender até um morto. Eu conseguia rir. Eu ainda conseguia fazê-lo.
– Claro que sim. Não te ia dar só conversa. Estás a lidar com uma profissional. – Troçou, pondo-se agora a meu lado. Era alta, mas não muito mais do que eu. O seu cabelo, apanhado numa trança prática, parecia contrastar com qualquer que fosse a revolta que o seu olhar transmitia. Parece que não era o único a sofrer, bastava só saber para onde olhar.