Peguei no telemóvel, consciente do seu peso. Era como se, naquele aparelho, estivesse a resposta para tudo. Qual lembrete do destino, pesado em mim. Olhei atentamente para a palavra mãe que pulsava no ecrã, assim como a sua fotografia de fundo. Tinha sido tirada no dia da mãe, há coisa de dois anos. O seu sorriso era límpido, feliz com a vida que tinha. Era amada por todos, e todos os seus campos de vida estavam estáveis. Teria eu coragem para os abalar? Para fazer desaparecer o seu sorriso de orgulho, ao pensar que foi a educação que falhou por eu não ser “normal”?
Voltei a encarar André, que se tinha começado a despir, e envergonhado pela situação, comecei a vasculhar o móvel, à medida que o telemóvel me vibrava na mão. Estendi-lhe a toalha sobre o seu escrutínio, e inspirei fundo.
Era agora que a casa ia abaixo.
– Olá, mãe… – murmurei. – Eu sei, mãe. Peço desculpa por ter deixado todos preocupados… – Engoli em seco, apercebendo-me da agonia na sua voz por ter visto o seu filho mais velho desaparecer num sábado à tarde sem avisar ninguém.
– O Pedro está também cá em casa. Está raladíssimo. Por favor, vem para casa, filho…
– O Pedro? – O meu coração martelava-me de tal maneira que respirar se tornara difícil. Sentia-me ficar branco como a cal, incapaz de imaginar o meu namorado no mesmo espaço que a minha família, e a tentar não se passar com a minha atitude. Mas o que mais me impressionava eram as saudades que tinha dele. De o sentir amar-me, de que ao pronunciar o meu nome me fizesse gostar dele… Porra, até da sua respiração na minha pele despida.
– Sim, o teu melhor amigo. Vá, vem para cá que ainda vens a tempo do jantar. – Retorquiu, já com um sorriso a escapar-lhe por entre as palavras. Sentia-se descansada, e naquele momento sentia uma lágrima escapar-me pelo olho, torturando-me por ter deixado a minha mãe arreliada.
– Sim, mãe. Mal consiga entrar no metro, chego a casa.
Ela despediu-se após lhe ter murmurado um até já, e desliguei a chamada, metendo o telemóvel no bolso.
André fitava-me do seu banho de cortina aberta, como se fossemos irmãos. Onde a desconfiança e a vergonha não existiam. Confesso que esta sua atitude o fizera subir ainda mais na minha consideração.
Sentei-me no bidé, fitando os azulejos que revestiam o chão. Esperava que me hipnotizassem no seu branco puro, mas nada conseguia conter a ansiedade que me invadia.
– Está tudo bem? – Foi André quem quebrou o silencio. Olhei para ele, focando-me na água que corria em abundância. Era um som tão calmo que era capaz de adormecer sobre o seu som, só para acordar daqui a uma década. Quiçá um século.
Assenti. Eu estava bem, mas não me sentia bem.
– Achas que sou… normal?
Os seus olhos esbugalharam-se, para depois serem fechados e engolidos por uma nova enchente de água.
– Bem, tens uma cabeça, um cérebro muito bom, por sinal, tens olhos, boca, orelhas, braços, pernas. Dentro de ti tens um coração e órgãos como eu, e sendo gajo, uma pila… Que anormalidade procuras em algo tão perfeitamente engenhado como o ser humano?
– Bem, sou gajo e gosto de gajos…
– Hm…. Estou a ver. Bem, continuas a ser normal. – Respondeu-me de forma sincera, continuando a tarefa de se lavar dos dias que estivera a viver na rua. – Vais contar aos teus pais? – Quis saber, desligando por fim a água para se enrolar à toalha que agora lhe estendia.
Encolhi os ombros, escondendo a ansiedade com um grunhido, enterrando a cara nas mãos.
– Pode ser que te surpreendas. Tem… calma. Respira fundo.
André aproximou-se de mim, colocou-me as mãos nos ombros de forma a me fazer olhar para ele, e fixou o meu olhar.
– Tu és normal. TU ÉS NORMAL! Vais sentir-te melhor. Não estás sozinho!
Piscou-me o olho após o seu carisma se revelar, e voltou a erguer-se.
– Passa-me agora lá a roupa da Sara para sairmos daqui.