Encontrar a fotografia perfeita nem sempre era tarefa fácil. Existiam muitas variáveis para que hoje, neste fabuloso dia em que tudo ganhava uma conotação negativa ao meu olhar, pensasse nelas. Simplesmente queria tirar fotografias e pronto… era isso. Só isso! O mesmo passava-se agora, em que a lente teimava em apresentar sujidade. Obviamente que a culpa não era dela, mas sim dos meus dedos nervosos, que se punham a tremer de cada vez que o meu telemóvel vibrava. Tinha demasiado medo de que fosse a minha mãe.
Limpei a lente, desviando-me a tempo dos raios de sol que se dispersavam pelo céu, e fotografei a cena diante de mim. Normal. Sem quase vestígios da vida portuguesa já que grande parte do movimento era de turistas.
Continuei a minha caminhada, absorta na paranoia de limpar a lente, quando uns gritos se fizeram ouvir.
Desviei rapidamente o olhar, procurando a causa do tumulto, quando reparei numa multidão crescente junto ao gradeamento da ponte. Tentei correr na direção da multidão, sendo interrompida pelo metro que anunciava a sua passagem. Esperei nervosamente pela passagem da lagarta amarela até chegar ao frenesim.
O que teria acontecido?
Perscrutei rapidamente os olhares horrorizados de alguns turistas para depois olhar para baixo, a tempo de ver uma agitação anormal na água gelada do rio Douro.
– ELE MAOTU-SE! ELE MATOU-SE!
Ouvi alguém gritar, levando-me a um aperto no coração, acordando os gritos de uma adolescente quando descobrira que o seu pai falecera num acidente de mota, a caminho de casa.
Sem fôlego, liguei rapidamente a máquina com um pressentimento crescente no peito, capaz de me correr os ossos. Um pico de adrenalina era o que sentia, aliado a um medo crescente mascarado de desilusão. Não do jovem que se acabara de atirar da ponte, mas de mim própria.
Passei rapidamente os olhos pelas fotografias tiradas até o ver. Ali. Esbatido pelos raios de sol, com um efeito de auréola à sua volta, quase que antevendo o que se daria. O meu coração parecera parar de bater tamanho o choque. Era a evidência clara: quase que poderia dizer que preto no branco, não fossem as cores alaranjadas fotografadas. A evidência de que eu, perdida nos meus pensamentos, procurava fotografar a vida quando a ignorava.
A revolta era crescente. Estava desiludida. Estilhaçada por dar-me conta da pessoa fútil que me tornara. Não tinha sido esta a formação que recebera do meu curso. Não tinha sido a educação que o meu pai me dera…
Engolindo em seco a minha teimosia, e trincando o lábio para me certificar de que não estava a sonhar, peguei no telemóvel. Iria ligar para a minha mãe, e quer ela gostasse quer não, iria fazer as minhas escolhas. Se não as aceitasse, teria muita pena, mas deixaria de a considerar como minha mãe.
Levei ansiosamente o telemóvel à orelha, em que cada toque de chamada era como um prego pregado ao meu coração. Eu tinha de fazer isto!
– Sara? Onde raio estás! Estou tão…
– Mãe! Sou muito grata por tudo o que me deste. Em especial após a dor que foi perder o Pai, mas não o estaria a honrar se não fosse capaz de seguir as minhas escolhas, e estar aqui, é a minha escolha.
Um silêncio.
Uma fungada do outro lado da linha, seguido do som audível de um sorriso que julgara falecido.
– Está bem filha… está bem.
FIM
Nem sempre temos escolhas, e neste caminho que escolheste, deu-se isso. Os nossos jovens perdem tanto tempo a viver uma vida online por vezes tão ilusória, que interpretar a vida real se torna complicado. O mesmo com as escolhas da vida adulta. Cada vez mais os recém-licenciados sofrem, por vezes em silêncio, ou com o peso das suas decisões, ou com a injustiça que é o mercado de trabalho. A sociedade não ajuda, já que esta ainda vê a vida como um conjunto de etapas: saída da universidade – trabalho na área – casamento – constituição de família. Sabemos hoje que as coisas são bem diferentes, mas quando falar com os pais ou até falar interiormente connosco é difícil, por vezes surge a incompreensão, frustração e estigma. Todos sintomas de doenças preocupantes e crescentes nos dias de hoje, como a depressão. Com isto, não desvalorizem estes sentimentos e emoções. Não finjamos que estes problemas não existem! Está na altura de agir.
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