Interiorizei com atenção as suas palavras. A verdade é que só de a ouvir falar de Pedro, uma saudade gigantesca apoderou-se de mim. Nem acreditava que tinha pensado que pôr termo à vida seria o melhor.
Inspirei e expirei tão profundamente quanto conseguia e deixei-me apoiar na gigante parede de pedra da Serra do Pilar. Tinha de ligar ao Pedro.
Sim! Faria isso mesmo, e depois falaria com os meus pais. Já chegava deste dilema. Estava exausto.
Peguei no telemóvel, sentindo o seu peso e tomando por fim a consciência necessária para voltar a ouvir a voz do meu amado. Aquele que ansiava por receber nos meus braços…
Levei o telemóvel ao ouvindo, não esperando nem mais que dois segundos para ouvir a sua voz grave, mas meiga.
– Tomás? ONDE RAIO TE METESTE? – Estava em alvoroço, e por muito que noutra situação o repreendesse por me falar neste tom, estava mais que grato por o ouvir. Por ter sequer alguém disposto a falar-me desta forma preocupada, sentida.
– Longa história, babe – respondi, sentindo o olhar de Sara curioso. Era a primeira vez que falava com ele de forma tão… aberta. – Onde estás?
– Estou mesmo a chegar a casa dos teus pais… Estamos mesmo preocupados. A tua mãe até me ligou! Foda-se. Por que raio não atendeste a ninguém? Estava tão preocupado, amor…
– Pedro, calma. Respira. Estou aqui! – barafustei, ouvindo-o exasperar do outro lado da linha. – Vou para casa, está bem?
– Está bem… está bem. Estarei aqui.
Desliguei, incapaz de conter o transtorno que se apoderava de mim. Sara olhava-me, ansiosa por saber alguma coisa.
– Acho que está na altura de ir para casa. Estou na reta final, não quero desperdiçar mais do meu tempo.
Sara olhou-me de alto a baixo, como se uma máquina de Raio-X fosse, certificando-se de que eu estava bem. E por mais ansioso que estivesse, sentia-me em paz. Sabia que estava longe de ver este tormento acabar. Que muito do julgamento quanto à minha orientação sexual era também feito por mim próprio. E entre esse julgamento e o dos meus pais, o que conseguiria doer mais era o infligido por mim.
Suspirei, relaxando o corpo, olhando em redor a tempo de ver o que restava dos raios do sol desaparecer. Acreditava que amanhã, ao vê-los, teriam um significado completamente diferente.
Abracei Sara, impávida, encaminhando-me com ela até às máquinas de validação do passe do metro.
– Somos demasiado jovens para estar a desperdiçar a nossa vida assim. Acho que seguirei o teu exemplo. Tenho plena fé que se te conheci, se estava naquele local a fotografar, isso foi por uma razão. E agora sei-a. Obrigada!
Abraçou-me, eu entrei no metro e sem ambos darmos por isso, parte das nossas vidas acabara de mudar. Para sempre.