Trajetórias

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Sara

Foi o olhar de determinação em Tomás que me reacendeu o espírito que julgara perdido. Que pensara só existir por meio da fotografia, que com o seu fotograma ficava parada no tempo. Um pouco como eu, na verdade. É certo que tomei a liberdade de sair de casa, e tive força em o fazer contra tudo o que a minha mãe poderia pensar. Sabia que a perda do meu pai fora, e seria, para sempre algo imensurável. Ela, por perder o amor da sua vida, e eu por perder o meu pai.

O meu gosto pela fotografia apareça neste jogo, e no quanto procurava fotografar a vida enquando a ignorava. Quando me custava arranjar voz, mesmo que isso significasse uma rutura com a minha mãe.

Pousei por fim as chaves de casa, olhando para aquelas paredes, possíveis de vir a contar uma história futura. Sentei-me no Sofá, vislumbrando pequenos fragmentos de memória ao recordar de como fora passar ali férias com os meus pais.

Foi tão bom…

A revolta era crescente. Estava desiludida. Estilhaçada por dar-me conta da pessoa fútil que me tornara. Não tinha sido esta a formação que recebera do meu curso. Não tinha sido a educação que o meu pai me dera.

Engolindo em seco a minha teimosia, e tricando o lábio para me certificar de que não estava a sonhar, peguei no telemóvel. Iria ligar para a minha mãe, e quer ela gostasse quer não, iria fazer as minhas escolhas. Se não as aceitasse, teria muita pena, mas deixaria de a considerar como minha mãe.

Levei ansiosamente o telemóvel à orelha, em que cada toque de chamada era como se um prego fosse pregado ao meu caixão.

Eu tinha de fazer isto!

– Sara? Onde raio estás! Estou tão…

– Mãe!, sou muito grata por tudo o que me deste. Em especial após a dor que foi perder o Pai, mas não o estaria a honrar se não fosse capaz de seguir as minhas escolhas, e estar aqui, é a minha escolha.

Um silêncio.

Uma fungada do outro lado da linha, seguido do som audível de um sorriso que julgara falecido.

Fiquei parada naquele tempo, recuperando o fôlego do que me ia na alma. Não me lembrava quando tinha sido a última vez que me abrira à minha mãe. Podia dizer que fora no mês passado, mas desde que entrara na adolescência em que os segredos eram exclusivos para as minhas amigas, a nossa relação mudara. Muito! Quero dizer… bem sei o quão normal isso é… Mas tendo em conta que quase nem lhe dissera da minha Bênção das Pastas, o momento que agora estava a ter era um autêntico dilúvio de emoções. De perceber o quão falhara também como filha.

– Está bem, filha… está bem. – Retorquiu, numa frase que me deu a antever um futuro melhor.

FIM

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