Peguei por fim no telemóvel e, inspirando fundo, desliguei a chamada. Eram os meus pais, muito provavelmente preocupados por não saberem do filho num dia de sábado. Desligara, pelo que queria acreditar que me deixariam em paz sabendo que estava vivo, consciente, capaz de lhes desligar o telemóvel na cara.
Voltei a encarar André, que se tinha começado a despir, e envergonhado pela situação, comecei a vasculhar o móvel até encontrar uma toalha de banho.
– Não precisas de ficar tão envergonhado… Não me digas que és panisgas.
Ele sorria, ou tentava, por meio da sua barba suja e rosto adoentado, mas vendo a minha falta de reação e o como a palavra me ferira, com medo de que fosse assim que o meu pai me fosse a tratar, voltei o rosto para o espelho. Mas será que conseguiria olhar-me nos olhos por todo aquele tempo? Poderia muito bem sair pela porta fora, mas não estaria a ser verdadeiro comigo se não ajudasse este rapaz que mal parecia aguentar-se em pé.
– Desculpa. Não era minha intenção ofender, meu. Olha. – Voltei-me no sentido da sua voz, para o ver todo nu e a abanar-se, divertido. Mostrava-me que pouco lhe importava a orientação sexual de quem o olhava. Muito honestamente, só me apetecia rir, e foi o que fiz. Bem na sua cara. – Não foi algo elegante de se dizer, especialmente a quem me está a fazer companhia. Desculpa. Para ser honesto, como viste, pouco me importa de quem gostas.
Anuí, com restos de risos perdidos nos lábios, e sentei-me no tampo da sanita. Perguntava-me como raio acabara ali. Sabia a resposta, mas preferia manter a ignorância. Sabia que a próxima chamada telefónica dificilmente iria ignorar, mas agora era o meu tempo. Sem pensar em mim, mas nos outros. E, verdade fosse dita, estava muito curioso por saber que rosto e história escondia aquele rapaz depois de toda a sujidade lhe sair do corpo. Qual demónio, lembrete de uma decisão na vida que lhe custara.