Olhava para os ingredientes dispersos na bancada da cozinha como se esperasse que se cozinhassem sozinhos. Estava absorta. Surpreendida comigo mesmo por ter dado abrigo a dois completos estranhos que, à sua forma e tal como eu, estavam destroçados pela vida. Jovens, e a sofrer como não haveria memória.
Sempre tentara compreender como os fenómenos sociais e transformações da sociedade têm impacto na nossa vida, mas encontrar-me neste grupo de jovens que está no saco do sofrimento, parte-me o coração. Queria ter voz, e não estava a conseguir. O mesmo para o Tomás, que queria simplesmente deixar de viver, ou para o André que tomara uma decisão que, sem intervenção, era capaz de lhe mudar para sempre a vida.
Interrompido o meu pensamento com as portas a fechar dos vizinhos que chegavam agora a casa, inspirei e meti mãos ao trabalho. Peguei nos ovos, preparando uma omelete de fiambre, cogumelos e queijo, enquanto abria o armário dos medicamentos em buscar de Paracetamol. Com sorte, lá encontrei a caixa azulada, e desliguei a placa elétrica. Procurei água, imaginando que por debaixo da sujidade de André um rosto desidratado se escondia, e dirigi-me para a sala, onde se encontrava a mesa de refeições.
Sentei-me, balançando-me na cadeira, expectante por o que estaria a acontecer na casa de banho. Estaria tudo bem? Será que André voltaria às ruas ou, por ventura, tinha alguém que se preocupasse com ele? As perguntas eram várias e de diferentes formas, mas foi só com o barulho de passos no corredor que me levantei à velocidade da luz, expectante. Era Tomás, que corria na minha direção:
– Por acaso não tens algo que ele possa vestir? Uma camisola larga ou assim? É só até lhe lavarmos a roupa… – Atirou, levando-me a responder com um aceno.
– Tenho sim.
Saí da sala com Tomás no meu encalço e entrei no quarto, procurando freneticamente na minha última gaveta. Peguei numa velha camisola da universidade, com mais história que qualquer outra peça de roupa, e numa das calças de fato de treino que deixaram de me servir após a acentuada perda de peso que o término da minha relação anterior me dera.
Estendi-lhe a roupa, na esperança de que servisse ao rapaz, e voltei para a sala. Precisava de me sentar novamente. De sentir que isto era real, não um sonho ou conto de fadas.
Inspirei, expirei, abstraindo a mente, até ser desperta pelas vozes no corredor que ficavam mais altas a cada segundo.
Desviei a atenção para a origem do som, dando de caras com os dois rapazes. Caminhavam lado a lado de forma descontraída e até divertida. Parecia um momento digno de família, como se fossemos irmãos e eu, como irmã, tinha feito o jantar para eles. Deixei-me ficar a apreciar aquele momento, lembrando um sofrimento infantil ao relembrar que não tinha irmãos. Já tinha feito as pazes com esse desejo, mas estava a adorar este momento. Este sentimento.
André entrara finalmente na sala, seguido de Tomás. Porém, era o olhar do “ex-sem-abrigo” que me prendia a atenção. Estava límpido, descontraído. Ainda tinha um traçado de vermelho nos olhos, fruto do cansaço extremo, mas parecia como novo. Até a barba, que antes parecia desajeitada, estava limpa e como que escovada. Era impressionante como um banho poderia fazer milagres.
– Ficas muito bem com a minha roupa, não haja dúvida – consegui dizer, escondendo um riso. Seria estranho se me sentisse feliz? Descansada?
André pegou no tecido da larga t-shirt, contemplando-a.
– Sem dúvida. Acho que no futuro usarei os teus conselhos de moda para me vestir. – Troçou. Claramente que o sentido de humor era com ele.
– Como te sentes? – Foi Tomás quem me tirou dos olhos avermelhados de André, que tão misteriosamente me seduziam, para um mundo que parecia tão diferente do meu.
– Fome. Tenho muita fome. E sede!
Assenti, apontando para a refeição servida em pratos individuais. Vi-os sentar para, por fim, atacarem avidamente aquela refeição. Até eu própria me senti lambuzada e não resisti em comer também, sentido o sabor do ovo e fiambre explodirem na minha boca, nesta noite de inverno que parecia fazer jus à sua estação. Mas com esta constatação, a dúvida surgira: será que iriam cá dormir? Não me sentia confortável em deixar André ir novamente para a rua, nem a Tomás, que ainda há umas horas tentara pôr termo à vida. Não queria também estar a perguntar-lhes. A desfazer esta fantasia que criáramos numa tarde. Seria cruel. Porém, não demorou muito até que o barulho dos talheres fosse interrompido por um toque de telemóvel. Parecia um lembrete que fora daquela casa havia um mundo. Um conjunto de situações que nos arrancara a esperança e a vontade de ser jovens.
Olhei para Tomás, reconhecendo o toque, na expetativa de que mesmo interrompendo o nosso casulo, ele tivesse a força para enfrentar o que estava do outro lado da linha. Ele olhava-me, como se eu fosse a solução. Mas por mais que quisesse, não podia. Era uma escolha dele, e só dele.