Sentia os olhares postos em mim. O meu estômago contorcia-se, e a comida, que outrora me dera alento, era agora como que veneno na minha boca. Eu não pertencia àquela casa, àquela realidade. Estava na altura de atender a merda do telefone e lidar com isto de uma vez por todas. Já não era pela minha relação, era por mim.
Sara olhou-me, intensamente, como que transmitisse uma prece silenciosa. Queria dizer que me apoiava, e estaria ali para o que quer que fosse a minha decisão.
Peguei no aparelho que vibrava com a face voltada para baixo, e virei-o para mim, levando-o à orelha assim que vi o número da minha mãe a aparecer no ecrã.
– Olá, mãe… – murmurei, levando a André e Sara continuarem a sua refeição, num silêncio cruel à medida que começava a enfrentar o meu futuro. – Eu sei, mãe. Peço desculpa por ter deixado todos preocupados… – Engoli em seco, apercebendo-me da agonia na sua voz por ter visto o seu filho mais velho desaparecer num sábado à tarde sem avisar ninguém.
– O Pedro está também cá em casa. Está raladíssimo. Por favor, vem para casa, filho…
– O Pedro? – O meu coração martelava-me de tal maneira que respirar se tornara difícil. Sentia-me ficar branco como a cal, incapaz de imaginar o meu namorado no mesmo espaço que a minha família, e a tentar não se passar com a minha atitude.
– Sim, o teu melhor amigo. Vá, vem para cá que ainda vens a tempo do jantar. – Retorquiu, já com um tom alegre a escapar-lhe por entre as palavras. Sentia-se descansada, e naquele momento sentia uma lágrima escapar-me pelo olho, torturando-me por ter deixado a minha mãe arreliada.
– Sim, mãe. Mal consiga entrar no metro, chego a casa.
Ela despediu-se após lhe ter murmurado um até já, e desliguei o telemóvel com um grunhido que levou a André e Sara a fitarem-me, preocupados.
Levei a cara à mesa, falhando o prato com comida por pouco, e bati com a testa na madeira. Seria hoje ou nunca.
Com um calafrio, inspirei fundo e levantei os olhos até aos de Sara, à minha frente, para depois passar pelos de André. A confusão e perguntas enchiam-lhe o olhar, pelo que se iria contar aos meus pais hoje, e na presença do meu namorado, penso que não faria mal treinar com ele…
– Como sabes, sou gay… E vou hoje contar aos meus pais. A Sara encontrou-me hoje na ponte quando me preparava para me atirar dela porque o medo de viver como sou é demasiado grande para conseguir respirar.
André parecia indecifrável. Tinha as sobrancelhas arqueadas, como se estudasse qualquer significado oculto escondido nas minhas palavras, levando depois a sua mão ao seu ombro.
– Não estás sozinho. Aconteça o que acontecer, eu e a Sara estaremos aqui.
E sorriu. E naquele sorriso, mais de compreensão do que cortesia, senti-me mais encorajado do que em toda a minha vida. Percebia agora, de forma clara como a água, em que eu gostar de rapazes em nada me tornava diferente que um ser humano “normal”. Quis sorrir-lhe de volta, mas com lágrimas a aflorarem-me aos olhos, e a garganta seca, fechada, limitei-me a assentir e levantei-me da mesa.
– Queres que vamos contigo?