Intervir

Os meus olhos não queriam acreditar no que estavam a ver. Estava parva. Incrédula, naquele que era um momento digno de fotografar. Mas simplesmente não conseguia.

A máquina fotográfica repousava no meu estômago esfomeado, que começava a ressentir-se da minha estúpida greve de fome. Mas nem a indisposição me impediu de começar a caminhar em direção ao rapaz quase que pendurado na ponte D. Luís.

Sentia a respiração pesarosa, sem compreender bem o que estava a fazer e o que ia encontrar. Porém, o que mais me dava raiva era a falta de atenção que aquele momento estava a gerar. Como se fosse normal. Como se fosse esperado que um jovem se voltasse para o rio, sem o tabuleiro da ponte para o suster. Para o agarrar.

– Bela vista – comecei, sem perceber sequer o que dizer. Ele até podia estar ali somente pela adrenalina, não era? Não tinha que propriamente querer matar-se, pois não?

O rosto do desconhecido virou-se para mim, branco como a cal. Parecia que via um fantasma. Mas, verdade fosse dita, quem o poderia censurar?

Perscrutei-o com atenção, ao mesmo tempo que vasculhava na minha cabeça por conteúdo relacionado com o suicídio. Teria eu, em algum momento, falado disto nas minhas aulas de Filosofia, ou de Sociologia?

Engoli em seco. Estava tão ou mais receosa que o rapaz, de cabelo escuro e olhos igualmente sem cor, que fitava o rio. Esperaria ele que ele o salvasse?

– Sabes… – comecei, vendo a forma como este se agarrava ao ferro da ponte. Ele tinha medo. Isso eu sabia, pois era algo que conhecia, e bem! – Existem maneiras mais…, bonitas de apreciar o rio.

– Acredito que sim…

Uau! Ele falou. Com uma voz arrastada, mas falou. Uma vitória para a Sara!

– Mas às vezes não sabemos como ir até elas…

– Não seria mais fácil se estivessem somente num mapa? Com um trajeto já definido para nós as seguirmos? Sem dificuldade?

Poria as mãos no fogo ao dizer que estava a comparar o seu discurso ao que o trouxera ali. Tinha quase a certeza disso. Eu própria já me interrogara vezes sem conta o porquê de para os meus problemas não haver uma resolução pronta. Que fosse só copiar e colar na minha vida. Um bocadinho como a minha mãe gostaria que fosse. Sim, tenho a certeza de que ela gostaria que os seus problemas se resolvessem por meio de conversas que me fizessem reagir a arranjar uma resposta. Mas aí é que está o problema. Nem todas as soluções se adequam ao problema. Há demasiadas variáveis… Muita merda que não condiz com parte das respostas que possamos obter. Foi por isso que deixei de tentar. Que saí de casa e comecei a minha vida… Uma que me levava agora por um caminho que não compreendia.

– Sabes, também queria o mesmo. Gostava de ter um mapa que me dissesse exatamente onde ir, onde procurar o caminho. Mas não o tenho. Mas posso ajudar-te a encontrar o melhor trajeto.

O seu olhar há muito que abandonara o do rio azul. Penetrava diretamente no meu, como se fossem poços de sabedoria. E eu tinha alguma sabedoria… mas só porque aprendi que ninguém me entende, a não ser um semelhante. É por isso que agora estava expectante. De coração aos pulos, desesperada por alguém que visse o que se passava. Que aparecesse mais alguém e interviesse. Mas não havia ninguém. Nunca havia ninguém… Sem esse ninguém que ele tinha, haveria ele de aceitar a minha ajuda?

Aceitar                                        Mandar a Sara afastar-se

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