André olhava para mim e para Sara como se Deuses fôssemos. Fascinado. Incapaz de compreender como é que dois estranhos tinham tomado uma atitude que, para ser sincero, até a mim surpreendia. Muito provavelmente se tivesse sozinho, nunca tomaria a atitude que Sara tomara. Foi deveras surpreendente e só dava graças a Deus por ela me ter salvo também a mim.
– Temos de lhe fazer qualquer coisa… – Disse-me ela, ignorando a presença de um André que tremia, fitando-me como se fosse a resposta a todos os seus problemas.
– E se ele primeiro fosse tomar banho enquanto lhe preparávamos algo para comer?
– Excelente ideia! – Sara parecia em êxtase, como se esta fosse a sua jornada de herói. Eu próprio sentia-me feliz por ter algo com que distrair a mente, e além disso estava cheio de fome.
– Podes ajudá-lo? A casa de banho é ao fundo do corredor. Tens toalhas no móvel branco. Eu vou para a cozinha tentar fazer-vos algo com o pouco que cá tenho. Vai tudo dar certo!
André desviou o olhar de Sara para recair sobre mim. Parecia deveras desesperado, mas demasiado cansado para conseguir sequer sugerir algo. Achava estranho ajudar um rapaz que mal conhecia, no banho, mas ele estava uma lástima. Mal conseguia manter os olhos abertos e quase de certeza que chocava alguma gripe. Precisava de cuidados.
– Tens medicação cá em casa? – indaguei, aproximando-me de André, estendendo-lhe o braço para que se apoiasse.
André apoiou-se no meu pescoço, erguendo-se do sofá onde o sentáramos minutos atrás ao chegar a casa de Sara, e encaminhamo-nos para o corredor.
– Tenho só o básico, mas por agora deve chegar. – Anuí, vendo-a ir para a cozinha, levando a que continuasse o trajeto até à casa de banho. Senti o telemóvel vibrar novamente no bolso, mas antevendo uma chamada do meu namorado ou dos meus pais, ignorei. Queria continuar nesta fantasia que Sara criara. De que eramos como Deuses e nada de mal haveria atrás daquele apartamento, bem perto da Avenida central de Gaia.
– Não vais atender? – André finalmente dera sinal de vida, olhando-me de volta pelo enorme espelho pendurado em cima do lavatório.
Queria silenciar o telemóvel. Atirá-lo contra uma parede para descobrir finalmente o que era paz. Mas a sua pergunta acordara a dúvida… Deveria dizer alguma coisa, para pelo menos descansar quem quer que estivesse do outro lado da linha? Ou ignorar? Dar-me tempo?