– Não tínhamos essa intenção, peço desculpa. Fui eu quem o trouxe aqui – retorqui ao rapaz, olhando para Tomás, divertido e ainda na incerteza se se deveria levantar ou não.
– Por amor da santa. São mais que bem-vindos! – Proclamou André, como se aquele fosse o dia mais feliz da sua vida. – Não tive ainda ninguém que falasse comigo. – Prosseguiu, seguido de uma sucessão de espirros. O tempo estava frio, sentia o arrepiar no meu pescoço, e se bem me lembrava, a previsão seria de chuva. Não conseguia deixar de lhe perguntar se ele estava mesmo a dormir na rua ou se estava a mangar connosco.
– És mesmo habitante deste belo espaço?
Tomás ia alternando o olhar, quer entre mim e André, quer para o movimento atrás de nós. E a questão era mesmo essa, seguindo o seu olhar, não havia ninguém já naquela zona tal era o escurecer do céu. Não havia ninguém a preocupar-se. E isso entristecia-me. Profundamente. Sentia-me nauseada ao recordar o que fora sair de casa com uma discussão agreste, mas ter outra para onde me refugiar. E este rapaz nada tinha.
Revirei os olhos, antevendo já a minha escolha de Madre Teresa de Calcutá, começando a brincar ansiosamente com as mãos.
– Sim…Foi a casa mais barata que consegui alugar. E não tenho ninguém a chatear-me, a não ser vocês. Mas ao fim de dois dias, sabe bem.
– Dois dias? – Foi Tomás quem tomou o rumo à conversa.
André anuiu, fungando e encolhendo os ombros, como que ausente daquela realidade.
– Sim. Só comecei há dois dias nesta nova aventura – respondeu, com um espirro mais intenso. – Acho que estou a ficar doente.
– Ainda não tínhamos percebido – respondi eu e Tomás em uníssono.
Os olhos de André eram cada vez mais avermelhados, e as olheiras evidenciavam um cansaço extremo do corpo. A cara estava também suja, sem qualquer cor e com uma barba a pedir por ser cortada. Junto ao corpo tinha uma manta lamacenta, que muito sinceramente duvidava se faria qualquer diferença. Era impossível conseguir ver para além deste seu aspeto, pelo que não consegui evitar fazer o que sempre defendera: ajudar.
– Não te conheço. Tu não me conheces. Mas tenho um quarto a mais. Anda comigo. Ficas lá durante alguns dias…
André parecia não compreender a oferta, e Tomás, que outrora ficara chocado com as minhas decisões, acatava-as agora de bom grado, lembrando-se da sua situação. E o seu olhar não enganava, ele simpatizava, só não conseguia ainda compreender o porquê. Mas muito sinceramente, eu também. Só não queria admitir o porquê!
– Tomás, ajudas-me, por favor?
Juntos começamos a tarefa de erguer o corpo magro e esguio de André, enfraquecido por dois dias sem cuidado. Poderia ter meio mundo contra mim, mas não iria impedir de me agradar a mim mesma ao ajudar alguém.